Vida pelas sacadas

Há muitas árvores em frente ao meu apartamento, uma das razões por eu gostar tanto dele. Mas tem uma em especial, a que fica bem na frente da minha sacada. É pela chegada de suas folhas que sei que a primavera começou de verdade. Ela é sempre a última a brotar. Enquanto todas as outras já estão floridas, ela acolhe o tempo com calma, espera a frente fria que chega no início da estação e, só depois, quando os termômetros já marcam sinais de verão, ela se veste de verde como em segundos.

É por aqui que vejo o tempo passar. 34 dias de lockdown, 50 dias de escolas fechadas. A primavera italiana pode ser cruel em tempos de quarentena. O sol nasce cedinho e se vai só lá pelas 9 da noite. A brisa fresca leva o pólen das flores pelo caminho, as vezes parece até neve. A melodia constante dos pássaros deixa qualquer filme da Disney no chinelo.

Entre as coisas essenciais mantidas abertas pelo decreto, torrefação de café e floricultura. Acho que isso resume bem a cultura italiana. Não dispensa um café fresquinho e flores pelo caminho.

Agora a primavera se mudou para as sacadas, nunca antes tão cheias de vida!

Enquanto dou a quadra com os cachorros, a mãe brinca de bola com a filha no terraço do prédio ao lado, o moço do quarto andar faz exercícios enquanto o casal do apartamento vizinho mede cuidadosamente as paredes para uma possível reforma, o que é bem compreensível dado o tempo que a gente tem ficado no mesmo ambiente. A família do prédio em frente resolveu montar a sala ali mesmo, na varanda.

A mulher do 3° andar não faz drama porque não pode ir à praia, criou sua própria na sacada e ali pega sol de biquíni, enquanto a jovem ao lado grava vídeos pelo celular sem vergonha nenhuma de não estar entre 4 paredes.

Tem também o homem de negócios, que deixa claro pra todo mundo que continua trabalhando nesse período de crise, enquanto fala aos quatro ventos pelo celular numa intensidade sonora mais alta do que a frequência normal italiana, que já é alta. Uma disputa acirrada com meu vizinho que resolveu aprender saxofone.

A senhorinha do 2° andar espia todo mundo e fica confusa quando aceno para ela e desejo feliz Páscoa. “Quem é você? eu te conheço?”

Bem, eu moro por aqui, a essa altura do campeonato a gente já se conhece sem precisar tomar um café, tá todo mundo se apresentando através de seus gestos rotineiros nos balcões.

A primavera italiana pode ser cruel em tempos de quarentena. Mas não pro povo que se adapta a cada dia, absorve o calor da rua para dentro de si e não espera por dia melhores chegarem, mas os cria a cada nova manhã.

Eles tem me ensinado muito.

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