Normalidade

A terra molhada agora é concreto.

Parece que até a primavera resolveu dar uma pausa, o frio voltou sem pedir licença, com seus dias cinzas e seu ar gelado que chega a arder as mãos. A paisagem da janela parece um espelho desses dias sombrios. Nevou até no sul em pleno fim de março.

A gente tá em março? Já perdemos as contas. O calendário na parede parou em fevereiro. Nem adianta virar a página, todos os planos foram cancelados.

No início tudo parecia tão distante. Ainda lembro do almoço com os colegas comentando sobre as primeiras notícias do ocorrido na China. Agora as sirenes tocam aqui, tocam em qualquer lugar.

Ouvi dizer que em alguns lugares estão querendo voltar a normalidade, que isso não passa de um simples resfriado. Que sorte a deles que ainda não convivem com a morte ao lado em forma de caixões no meio das ruas. Ou fingem não enxergar para além de seus altos muros.

Parece que nos tornamos apenas números em um gráfico que não para de crescer. 969 mortos em 24 horas. Quase mil mortes em um dia, entre eles muitos médicos, por um “simples resfriado”.

Um novo decreto, um novo certificado para sair de casa, uma nova data para que tudo volte ao normal. Normal?

Normalidade agora é acordar sem lembrar do dia da semana, colocar o mesmo abrigo, sentar na escrivaninha e trabalhar o dia inteiro sem horário pra acabar. Esperar 2 horas na fila para fazer uma compra de 10 minutos no mercado. Tentar explicar para os cães, sem sucesso, que é dia de mais uma volta pela rua do prédio, quando eles insistem em virar para esquerda em direção ao parque coberto por faixas preta e amarela como em uma cena de crime. Ao menos ainda temos trabalho, temos comida, temos amor.

Sempre achei que normalidade fosse a vida no automático. Então nada está mais normal do que agora.

As vezes tenho a sensação de que isso vai durar para sempre. Mas assim como o inverno, tudo passa.

Hoje o sol voltou a brilhar. Os vizinhos fizeram churrasco no pátio do prédio, ofereceram um copo de cerveja há um metro de distância. Convidaram para um café via Skype.

Engraçado, no passado a gente só se cumprimentava nos raros esbarrões entre nossas rotinas. Agora planejamos um almoço de condomínio onde todo mundo pode sentar do lado do outro e se abraçar.

Enquanto esse dia não chega, a gente brinda pelas sacadas, joga bolinha no meio da rua, anda de bicicleta no pátio, escreve, se adapta para camuflar a dor. Resistimos.

Não vemos a hora de que tudo volte a ser diferente.

2 comentários sobre “Normalidade

  1. Oi Nike ! Lindo o que você escreveu !! Muitas vezes penso em vocês por aí !! Aqui as coisas estão semelhantes apesar de ainda não termos o mesmo número de contaminados ou mortes registradas . Você disse tudo : Ao menos temos saúde , comida e muito amor . Temos também Fé e é ela que nos mantém a esperança de que quando tudo isso passar , e vai passar, o mundo e as pessoas serão melhores . Desejo força e coragem para enfrentarem os dias que virão e que tudo isso passe logo para todos nós . Um beijo grande no teu coração e um forte abraço. Deyse e turminha

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