Chernobil

Férias, amigos morando em um país até então novo para mim e grana devidamente economizada já são motivos suficientes pra eu colocar um colchão de ar na mochila e me jogar por aí. Foi assim que Chernobil entrou na minha vida muito antes do previsto (como várias coisas na minha vida, aliás).

Foi assim, também, que surgiu a piada de que eu iria voltar de lá conseguindo contar nos dedos os países que já visitei, o que significaria voltar com uns 30 dedos a mais nas mãos. Por sorte não consigo contar nos dedos, mas posso contar a história do dia que conheci a região onde aconteceu o maior desastre nuclear da história.

Acidente nuclear de Chernobil

Foi na madrugada de 26 de abril de 1986, na extinta União Soviética, que o reator n. 4 da usina nuclear de Chernobil explodiu, liberando partículas radioativas nocivas aos seres vivos e ao meio ambiente.

“De acordo com observações diversas, em 29 de abril de 1986 foram registrados altos níveis de radiação na Polônia, na Alemanha, na Áustria e na Romênia; em 30 de abril, na Suíça e no norte da Itália; nos dias 1 e 2 de maio, na França, na Bélgica, nos Países Baixos, na Grã-Bretanha e no norte da Grécia; em 3 de maio, em Israel, no Kuwait e na Turquia…Projetadas a grandes alturas, as substâncias gasosas e voláteis se dispersaram pelo globo: em 2 de maio foram registradas no Japão; no dia 4, na China; no dia 5, na Índia; e em 5 e 6 de maio, nos Estados Unidos e no Canadá. Em menos de uma semana, Tchernóbil se tornou um problema para o mundo inteiro.” — Consequências do acidente de Tchernóbil na Belarús. Minsk, Escola Superior Internacional de Radioecologia Sákharov, 1992, p. 82

A cidade de Chernobil

Letreiro na entrada da cidade, ainda conserva o símbolo do partido socialista da época

Ao chegar em Chernobil, você dá de cara com o que parece ser um cemitério. E não é um cemitério qualquer. Não existem corpos lápides, mas uma via com todos os nomes dos vilarejos atingidas pelo desastre e que hoje não são mais habitáveis, ou seja, vilarejos mortos. Ao lado, no chão, um mapa de concreto com a localização de todos eles, na Ucrânia e Bielorrússia. Cada ponto do mapa é uma espécie de castiçal, onde são colocadas velas todo ano no dia 26 de abril, uma forma de homenagear às vitimas do desastre. Esse complexo se chama “Memorial Starmwood”.

Enquanto dirigíamos pela cidade, tudo parecia normal. Correios, quartel de bombeiros, café, restaurante, hotel, pessoas e cachorros. Mas não era essa uma cidade fantasma?

Bem, para começar toda região é oficialmente Zona de alienação da Usina Nuclear de Chernobil, mais conhecida como “zona de exclusão”. Isso não significa que ninguém possa entrar, mas que apenas pessoas autorizadas podem circular por ali. É por isso que para nós, meros mortais viajantes, só é possível acessar a zona com um guia licenciado (como explicado melhor em informações úteis ao fim do texto).

As pessoas autorizadas são pesquisadores, bombeiros e trabalhadores do único café/restaurante, correio e hotel da zona. Elas devem seguir uma série de regras de segurança quanto a radiação, ou seja, não podem ficar mais de 8 horas dentro da zona, nem entrar por mais de 3 dias seguidos. Geralmente essas pessoas trabalham um período dentro e um período fora da zona.

Batalhão de bombeiros (Arquivo pessoal)

Vilarejo Kopachi

Ao adentrar Chernobil, tudo o que você vê é floresta. É difícil acreditar que por dentro daquela mata fechada existam casas abandonadas. O vilarejo Kopachi era o mais próximo da Usina Nuclear, sendo o primeiro a sofrer com a radiação no dia do acidente.

Apesar de Chernobil não ter sido uma cidade residencial (os trabalhadores e suas famílias moravam em Pripyat), Kopachi contava com uma população de aproximadamente 1000 habitantes e foi usada como deslocamento temporário do 731º batalhão de bombeiros, conhecidos como os heróis de Chernobil. A livraria, a escola, as casas, máquinas, cercas, árvores…tudo foi enterrado, já que a madeira é um material que absorve radiação e essa era a única forma de evitar que a contaminação continuasse se espalhando. Apenas pequenas colinas com símbolos de radiação de aviso permaneceram assim como ruínas dos correios, algumas instalações agrícolas e uma creche para crianças. Este foi meu primeiro contato com as consequências do desastre.

Desenhos de crianças contrastando com as paredes descascadas; bonecas conservadas deixadas nos beliches cheios de pó; porcelanas intactas apoiadas em armários quebrados. Tudo parecia um cenário planejado e, ainda assim, era tudo tão real.

Creche em Kopachi (Arquivo pessoal)

Apesar da exposição extremamente alta à radiação, os moradores de Kopachi foram evacuados apenas em 3 de maio, uma semana após o desastre, de forma amistosa, pois acreditavam que voltariam dentro de alguns dias. O caos do lugar não se deve só a passagem do tempo, mas ao fato de que, anos depois, pessoas se infiltraram na zona de exclusão e saquearam materiais contaminados que ficaram para trás, como televisão e até assentos de banheiro.

Memorial aos liquidadores

Os bombeiros do 731º batalhão foram os primeiros a combater o incêndio na Usina Nuclear de Chernobil. Além deles, militares, operários e voluntários se encarregaram de apagar os incêndios e construir o sarcófago, estrutura desenhada para conter a radiação liberada durante o acidente. Eles foram chamados de liquidadores.

“Mais de uma vez — e aqui há o que se pensar — escutei a opinião de que o comportamento dos bombeiros que apagaram o incêndio da primeira noite na central atômica, assim como o dos liquidadores, assemelhava-se a um suicídio. Um suicídio coletivo. Os liquidadores, via de regra, trabalharam sem roupas especiais de proteção, dirigiram-se sem protestar para lá, onde morriam os robôs, esconderam deles a verdade sobre as altas doses recebidas, e eles se resignaram a isso, e ainda se alegraram ao receber os diplomas e as medalhas que o governo lhes conferiu pouco antes de morrerem. Muitos nem chegaram a recebê-las. Então, o que são eles, heróis ou suicidas? Vítimas das ideias e da educação soviética? Por alguma razão, esquece-se, com o tempo, de que eles salvaram o país. De que salvaram a Europa. Imagine por um segundo o quadro, caso o incêndio tivesse se espalhado e os outros três reatores houvessem explodido…” — Vozes de Tchernóbil. Svetlana Aleksiévitch, 2013, p. 43.

O Memorial aos heróis de Chernobil homenageia os bombeiros e todos os liquidadores do desastre, com as palavras: “Para aqueles que salvam o mundo”. Este monumento foi construído por esforços de pessoas que trabalharam aqui, apesar de se acreditar que o verdadeiro monumento aos heróis é o sarcófago que construíram com as próprias mãos.

Usina Nuclear de Chernobil

Hoje é possível se aproximar do reator n. 4, apesar do alto nível de radiação ainda presente ali. Para se ter uma idéia, o nível de radiação que estamos expostos normalmente é de 0,2 μSv/h. Em frente a usina, o medidor de radiação apontava 1.19 μSv/h. É por isso que pesquisadores e técnicos que ali trabalham são proibidos de passar mais de 5 horas dentro da usina e devem alternar os dias de trabalho na estação.

Reator n. 4 (Arquivo pessoal)
Medidor de radiação em frente ao reator (Arquivo pessoal)

No fim de 2016 foi concluída a construção do novo sarcófago, estrutura destinada a conter o vazamento de material radioativo e possibilitar a demolição do antigo sarcófago construído na época do desastre. É a maior estrutura móvel já construída no mundo.

Informações úteis

Como chegar em Chernobil

Só é possível acessar Chernobil por meio de companias turísticas licenciadas pelo governo Ucrâniano. A maioria oferece passeios em grupo ou privados saindo de Kiev. Eu optei pela Solo East Travel. Além da viagem e guia em inglês, vem incluso um almoço em Chernobil e seguro (que é obrigatório).

É obrigatório levar o passaporte, pois existem check points na entrada, saída e em algumas áreas da zona de exclusão.

E não é perigoso?!

Atualmente a radiação nos arredores da cidade é equivalente a de uma capital, ou seja, nada que não somos habituados. Já em alguns pontos ou mata fechada, é importante não encostar em nada para não ser contaminado. Como precaução, é regra ir com o corpo todo coberto (mesmo que você vá na semana mais quente do ano, como aconteceu comigo). Um controle que mede radiação é feito na entrada e na saída do local. A exposição total que temos à radiação nesta visita é equivalente a um ou mais vôos transatlânticos.

Locais com alto nível de radiação são sinalizados (Arquivo pessoal)

Mas Munike, e aquele parque de diversões abandonado, cadê?? Calma, nos próximos relatos: a cidade fantasma de Pripyat e suas vozes, vida selvagem em Chernobil, floresta vermelha e Duga-1: o radar de mísseis da guerra fria.


Este texto foi primeiramente publicado no Medium dos Exploradores, um coletivo de viajantes que gosta de escrever. Se você curte viajar, vale a pena seguir a página! 😉

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