O dia que toquei nas mãos de um cadáver balcânico.

Era 8 de dezembro, uma sexta feira. Com a alta movimentação na cidade, cogitamos que estivéssemos presenciando um feriado religioso. Não foi pelo fato da ordenação de novos padres que estava rolando naquele dia — era padre e bispo que não acabava mais — mas porque em todas as igrejas que entrávamos percebemos muitos fiéis beijando constantemente imagens de Santos na parede e fazendo o símbolo da cruz.

Ordenação de padres na Catedral Nossa Senhora Rainha de Iasi
Catedral por dentro

A cena mais curiosa foi na Igreja Metropolitana, onde centenas de fiéis formavam uma fila para chegar até um caixão e receber a bênção de um padre. Enquanto isso, outro padre rezava a missa olhando para o altar, ou seja, de costas para as pessoas.

Alguém importante tinha morrido, mas quem? As teorias em torno do caixão começaram aí: seria o presidente? Alguém da família real? Alguém famoso? Estaríamos vivendo um dia histórico para a cidade?

Na dúvida, perguntamos a um padre que, com muita tranquilidade, respondeu:

— It’s Christmas time!

Aparentemente a movimentação de fiéis nas igrejas era algo cotidiano, mas quem é que estava naquele caixão, afinal?

— É Parascheva, a Santa padroeira da região dos Bálcãs. Pessoas de toda a região vem pra cá para vê-la e receber a bênção. Vocês deviam aproveitar a oportunidade e fazer o mesmo — disse ele com uma simpatia que não tinha visto até então.

Caso resolvido. O defunto já estava morto a mais de 900 anos!

Altar da Catedral Metropolitana (http://ansamblulmitropolitaniasi.ro)

Voltamos para igreja para encarar a tal fila que, pra nossa sorte, tinha diminuído consideravelmente. Tentava disfarçar minha impostura sem sucesso, já que a bolsa pendurada na frente do corpo com câmera fotográfica, garrafa de água e mapa davam todos os sinais de que eu era uma turista. O cabelo raspado também não ajudou— era algo tão raro por ali que uma mulher tentou me expulsar de um banheiro feminino achando que eu era um guri.

Conformada, segui na fila enquanto observava o que as pessoas faziam quando chegavam no altar do caixão: primeiro beijavam uma caixa de prata com pertences da Santa, enquanto faziam o sinal da cruz. Em seguida, beijavam o vidro que protegia seu corpo no caixão e aí seguiam para a bênção do padre. Depois disso passavam por todas as imagens da Santa pela igreja fazendo sempre o mesmo ritual: beijo e sinal da cruz. Alguns choravam, alguns tocavam o chão antes de se benzer, alguns passavam horas rezando para a Santa. Enfim, era algo bem intenso para eles.

Chegara minha vez. Meu senso de higiene não me permitiu beijar a caixa que a galera passava os lábios, um atrás do outro, mas baixei a cabeça em sinal de respeito. Subi no altar onde se encontrava a Santa, com o corpo coberto por um tecido. Lembrei do que a mulher na minha frente tinha feito e toquei na única parte que não era coberta pelo vidro. Senti o corpo da Santa. Olhei para o rosto dela, olhei para minhas mãos e…

WOW! EU TÔ TOCANDO NAS MÃOS DE UM CADÁVER NA ROMÊNIA!!

Parascheva (Google)

Enquanto eu processava o que estava acontecendo, fui ao encontro do padre que me deu a bênção de Parascheva. Se fará algum efeito não saberei ao certo, mas pelo menos terei mais uma história para contar pros netos.


Parte do texto publicado no Medium dos Exploradores, um coletivo de viajantes que gosta de escrever. Para ver o texto completo clique aqui. Se você curte viajar, vale a pena seguir a página!

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