Pingo de gente

Me despedi do meu bisavô minutos antes de partir de Criciúma sem saber ao certo quando voltaria. Sai correndo para sua casa pra ter tempo de bater um papo com ele e minha bisavó. Era quase como um ritual, toda vez que ia fazer uma viagem longa. Confesso que muitas vezes deixava pra ultima hora, quem sabe por nunca encarar esses momentos como despedidas de fato.

Cheguei na sua casa pra dar a notícia de que estava partindo para Israel. Seu Bino, como era conhecido, começou a rir.

“Esse pingo de gente” – era o que ele sempre me falava

– Esse pingo de gente sai por aí sem medo! Ultima vez estava morando na África. – ele dizia para sua enfermeira, sempre rindo.

Meu nono nunca saiu do país, ao contrário da minha nona que já andou até de camelo em Jerusalém. Tinha medo de avião, não era o tipo que saia muito de casa. Mas meu bisavô guardava uma vida cheia de aventuras, aventuras essas que hoje não imaginamos mais vivenciar.

Chegou em Criciúma quando era ainda “tudo mato”, literalmente. O meio de transporte era o cavalo. As vezes levava dias pra chegar de um lugar ao outro. As vezes, nessas andanças, a água do rio inundava a rota, fazendo com que a viagem atrasasse. E, bem, naquela época não tinha meio de comunicação para avisar sobre o atraso. Dá pra imaginar o desespero de quem espera?

Deve ser por isso que meus bisos se surpreenderam tanto quando participaram da primeira ligação por Skype, uns anos atrás.

– Dá de ver ela! Mas ela ouve a gente? Parece que ela tá aqui do lado!! – eles exclamavam. Que experiência divertida tive o prazer de vivenciar junto deles, mesmo de longe.

Assim como tudo na vida é feito de escolhas, ficar longe é uma delas. É abrir mão de experiências para ter outras, sejam elas boas, ruins, relevantes ou banais. Mas é, também, fortalecer os laços com pessoas queridas.

Meu nono partiu dia 30 de dezembro, perto da virada do ano, e eu só recebi a notícia hoje. Quem sabe por ser o melhor momento para tal.

Nono Bino, com seus mais de 95 anos, ainda tinha todos os fios de cabelo, mas já não tinha mais os dentes. Ele me viu sorrir uma ultima vez e me perguntou onde eu tinha arranjado aqueles dentes bonitos. Eu disse para ele aguentar firme, que eu ia voltar cheia de historias pra contar, enquanto tomávamos o famoso café da nona.

Depois a enfermeira me confidenciou que ele a disse que eu era uma menina muito corajosa. Corajoso era ele! Eu sou só um pingo de gente.

Anúncios

2 comentários sobre “Pingo de gente

  1. A….. o bino escoradinho na frente da padaria universo onde quase todos os dias eu ia buscar o pão pra nossa prole .
    Sempre um”boa tarde” sorridente.
    Lindo o teu texto e tuas memórias,
    continua tuas andanças pelo mundo e trás pra nós , na forma destes escritos gostosos de ler, tua visão de mundo. …
    bjs e um abraço carinhoso pelo bino….

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s