Cinco ovos.

Acordamos com um belo café da manhã na mesa. Kuky tinha saído cedo para comprar todos os tipos de frutas possíveis. Queria mostrar o que Cuba tinha a oferecer. Cortou-as de um jeito meio artístico e organizou em uma bandeja.

— Bonito este jeito de cortar a manga né? Foi uma hóspede francesa que me ensinou. Mas não se acostumem, faço isso só no primeiro dia, porque dá muito trabalho – ela comentava, enquanto ria.

Além das frutas, tínhamos omelete, café e o famoso Mix 8, suco que Kuky preparava com oito frutas. Tudo por 5 dólares/CUC por pessoa.

Toda manhã ela vinha nos mostrar algum tipo de fruta ou tempero da região para perguntar se conhecíamos. Poderia discorrer por horas sobre a cebolinha que segurava na mão. Aparentemente aquilo agora era o foco de sua vida: o que colocar no omelete.

Aida (Kuky) saiu do interior de Cuba para Havana quando tinha 11 anos de idade, em 1959, mesmo ano da Revolução. Não lembra como eram as coisas no país antes disso, mas descrevia os anos de vida com muita sabedoria e senso crítico.

Se formou em língua russa pela Universidade de Havana. Escolheu o idioma por ser importante e menos concorrido, assim teria emprego garantido. Enquanto trabalhava como professora, ganhou a oportunidade de viajar para a Rússia, até então União Soviética, não fosse pela terrível coincidência de que no mesmo ano a URSS deixaria de existir, fazendo com que fosse proibida de viajar. E, pior, de continuar exercendo sua profissão.

Com o estado socialista desfeito, não era mais permitido falar o idioma em Cuba. Aida então passou a aprender inglês para continuar lecionando pelos últimos anos de trabalho. Hoje, já aposentada, tem de alugar o próprio apartamento para turistas pois se não o faz, o governo a transfere para um apartamento menor. Parte do aluguel vai para os impostos, parte vai para os ovos dos omeletes, já que os cinco ovos mensais cedidos na cesta básica do governo não são suficientes.

— Cinco ovos! Vocês imaginem, cinco ovos por mês! – ela exclamava, com um riso desesperado, enquanto passava a mão na testa para secar o suor.

O mesmo suor que, em suas palavras, ela deu a vida toda para construção de seu país, sem saber ao certo o que de fato é seu.

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