Adeus 2015. E obrigada.

Dia 01 de janeiro de 2015 eu estava em Barranquilla, na Colômbia, comemorando a passagem de ano com a Marce e sua família. Tivemos que ver os fogos de dentro da casa, pois algumas pessoas ainda tem o costume de dar um tiro com revolver pro alto, mesmo que proibido por lei, e isso pode atingir algum inocente. Estávamos eu, minha família, ela, a sua avó Tita, sua mãe Maria Victoria e seu pai Alfredo.

Conhecemos o Alfredo alguns dias antes. Chegamos em seu quarto e ele nos recebeu muito afetuoso e bem humorado perguntando se a Marce tinha se comportado quando morou com a gente no Brasil. Nos mostrou sua coleção de CDs de música, falou um pouco de português e nos apresentou a alguns de seus diários e textos. Um deles dizia:

“Minha vida é bela porque assim a vivo a cada dia, cheia de abraços, sorrisos, entusiasmo, alegria, paciência, sabedoria, assim como vivem os barranquilleros no carnaval, assim vivo sempre minha vida.”

A maioria de seus diários é escrito com a ajuda de enfermeiras através de uma placa com o alfabeto e sinais que o Alfredo usa para se comunicar com os olhos, hoje a única parte do corpo que ainda consegue movimentar. Há aproximadamente dez anos ele foi diagnosticado com Esclerose lateral amiotrófica (ELA). Algo que poderia ser motivo de tragédia pra uns, se mostrou um elo de força e união para essa família colombiana que tenho orgulho de fazer parte de alguma forma.

No mês seguinte eu decidi que ia trabalhar voluntariamente em um projeto no Quênia e, seis meses depois, eu conheci o Jacob, o Simbi, o Maja e tantos outros refugiados que me confiaram suas histórias. Vivi num mundo completamente diferente do meu, encarando cada desafio com otimismo e amor, pois era isso que eu absorvia deles diariamente.

Conheci uma escola com tantas crianças sem condições de estudar e pedi ajuda pra quem estivesse disposto a dar uma educação digna para elas. O retorno veio de várias formas que me fizeram perceber que unidos somos mais fortes e que, por mais pequeno que sejam nossos atos, nós podemos mudar o mundo. Parece bobo, mas senti esperança.

Senti esperança nas palavras do Alfredo e no afeto de sua família; na gargalhada da Florence toda manhã; na tranquilidade do Maja quando tudo parecia dar errado; no olhar do Simbi ao me agradecer por compartilhar sua história; no abraço sincero do Jacob toda vez que eu precisei de um ombro amigo; na alegria das crianças ao ver seu futuro sendo reconstruído através de livros; no gesto das várias pessoas que me ajudaram, sejam amigos, conhecidos ou desconhecidos; no amor da minha família, que sempre me deu forças.

Este ano, desde o primeiro ao último dia, descobri o verdadeiro significado das palavras gratidão e empatia, através das histórias das várias pessoas que cruzaram meu caminho, suas dores e suas conquistas. Pessoas que convivo há anos, pessoas que passei a conviver somente neste e aqueles que tive o prazer de reencontrar depois de muito tempo. Hoje levo todas elas dentro de mim e tento transmitir um pouco de cada uma para o próximo.

Que em 2016 possamos viver como os barranquilleros em pleno carnaval: com paciência e sabedoria para encarar novos desafios, abraços e afeto para distribuir e sorriso estampado no rosto. E que possamos enxergar beleza em tudo que vivamos, mesmo as vezes sendo difícil.

Feliz ano novo!

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