O dia que Rafael viu o mar.

Cheguei em São Paulo dia 24 de novembro, depois de 14 horas de viagem, poucas de sono e alguns imprevistos. Entrei no avião com destino a Jaguaruna, minha última parada antes de chegar em casa, e enquanto me dirigia ao meu assento na janela, ouço o cara ao lado exclamar “que pena! Achei que não viria ninguém e eu poderia ficar na janela.”

Sem exitar, eu disse que poderia trocar de lugar tranquilamente, que pouco me importava onde sentar. Ele abriu um sorriso e disse obrigada com um sotaque particular, que mais tarde descobri ser do interior de Minas.

– É que nunca viajei de avião. Quer dizer, vim de Belo Horizonte até aqui (São Paulo), foi a primeira vez. – ele me contava, entusiasmado.

A primeira vez que voei eu tinha apenas sete anos. Meus pais me mostravam da janela do avião a cidade se transformando numa grande maquete, com casas e carros minúsculos, até que eles iam sumindo em meio ao céu, e tudo que se via eram raios solares e nuvens. Curiosa e cheia de imaginação, eu perguntava à minha mãe onde estavam os ursinhos carinhosos, afinal aquele era seu lar. Crianças…

– A gente vai passar em cima do mar? Eu nunca vi mar. – ele me perguntava enquanto minha memória vagava por tantas coisas que já vi daquela pequena janelinha.

O sol nascendo e se pondo, as nuvens que parecem algodões, chuvas, tempestades, relâmpagos, montanhas cobertas de neve, desertos e o oceano. Este que, infelizmente, ele não teria a oportunidade de ver na sua primeira viagem, se não fosse pelo anúncio que o comandante deu enquanto tentava pousar no aeroporto.

– Não há teto para o pouso. Teremos que voltar e pousar em Florianópolis.

O Rafael (depois de longas conversas no vôo, eu já sabia seu nome) não estava entendendo nada sobre a situação. Me fazia perguntas constantes sobre como ele iria chegar em Jaguaruna se o avião estava mudando de rota e a razão de estar indo para Florianópolis.

– Aliás, onde fica Florianópolis? – ele questinou.

– É uma ilha, capital do nosso estado. Sabe o que isso significa, né?

Que ele iria ver o mar. E não só viu o mar do alto, como o viu de perto, enquanto andávamos de ônibus até o destino final. Tirava fotos, olhava tudo ao redor curioso, apontava, me perguntava como era entrar no mar, por que não tinha ninguém aquela hora tomando um bom banho. Parecia uma criança.

Olhos brilhando, coração palpitando, sonho se realizando. Eu sei o que o Rafael sentiu naquele momento. Foi o que eu senti na minha primeira viagem de avião, no meu primeiro intercâmbio e na minha chegada ao Quênia.

Acho que vou voltar a sentar nas janelas.

Anúncios

Um comentário sobre “O dia que Rafael viu o mar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s