Meu último dia.

É 12 de novembro. Acordei com o dia todo planejado, afinal era o meu último no Quênia. Tomar café, ir no correio pegar as camisetas do Tigre pra presentear meus amigos, ir na escola participar do encerramento do ano letivo e começar a arrumar as malas.

Entrei no ônibus para ir para o correio as 9 da manhã. O evento na escola era as 10, então daria tempo suficiente, se não fosse pelo fato de o ônibus demorar quase 30 minutos para sair da comunidade, pois esperam sempre encher de gente, já que é o ponto inicial da rota. Chego no correio com o pouco dinheiro que me restava em xilins, moeda local, e descubro que para retirar o pacote devo pagar uma quantia relativamente alta, a qual não tinha no momento. Saio de lá bufando, pensando no tempo que tinha perdido. Olho o relógio nervosa com os minutos passando enquanto voltava pra casa. Já eram quase 11. É meu último dia e as crianças estão me esperando enquanto eu estou num vai e vem por Nairóbi, sem pacote nenhum, com um cara ao lado me incomodando.

Chego correndo no atelier para que alguém me acompanhasse até a escola. O Maja iria voltar pra me buscar, então sentei num degrau de uma loja na rua principal da comunidade e fiquei esperando. Cinco minutos. Começo a observar as pessoas trabalhando nos seus pequenos negócios feitos de chapas de zinco. Dez minutos. As pessoas caminhando em meio a poeira, muitas vezes com galões de água na cabeça. Quinze minutos. As crianças correndo com um galho e um pneu de bicicleta, o brinquedo comum delas. Vinte minutos. É meu último dia e eu estou atrasada.

Eis que surge o Maja e eu já saio correndo pedindo desculpas e perguntando o que tinha perdido. Ele, com toda a sua tranquilidade, sorri e pede para me acalmar.

– A aparelhagem deu problema pois não temos energia. Estão esperando o técnico arrumar para começar. Mas já está todo mundo lá, você tem que ver, está lindo!

E realmente estava. Os pais prestigiando seus filhos, as professoras orgulhosas e as crianças animadas, ansiosas e curiosas como eu. Os alunos do pré a caráter vestindo beca e chapéu para receberem o certificado de conclusão. Os demais com o que tinham de uniforme ou com suas melhores roupas, como um vestido que parecia de princesa. Sem dúvidas, era um dia especial.

Com a aparelhagem arrumada, cada turma fez uma apresentação para os convidados. Cantavam e dançavam, alguns mais tímidos, outros mais empolgados. Depois, para minha surpresa, veio um momento de premiação dos 3 melhores alunos de cada turma. O prêmio era um caderno e um lápis. Os pais de cada um eram chamados para bater uma foto juntos. Quanto orgulho vi naquelas pessoas! Infelizmente, algumas crianças são órfãs e alguns pais não puderam comparecer, mas as professoras cumpriram seu papel de pai e mãe com muito amor.

E, por último, o mais esperado: a entrega de certificados! Tive o prazer de ser convidada para entregar em mãos para as crianças e ver o sorriso no rosto de cada um com aquele simples pedaço de papel que significa tanto para eles.

– Hongera! (Parabéns em swahili) – eu disse, com um tom de dúvida se estava correto. Todo mundo riu e ficou surpreso.

– Você já está fluente! – eles brincavam.

Eu estava tão imersa no ambiente e aproveitando tanto o momento que esqueci da hora. Eram quase três. O correio fechava as cinco, e não era perto. Já não estava mais nervosa, muito pelo contrário. Foi colocar os pés na escola e ver todas aquelas pessoas tão contentes que tudo ficou mais leve. É meu último dia e eu sinto que cumpri meu papel aqui.

Toda vez que eu me despedia das crianças, elas cantavam, acompanhadas pela professora, uma música que dizia “Tchau Nike! Obrigada pela sua companhia! Te vejo amanhã!”

Só que dessa vez o amanhã virou incerto. A professora cantou “ano que vem” e as crianças ficaram perdidas na canção. O que era pra ser só mais um tchauzinho, virou o abraço coletivo mais sincero que já recebi.

Tchau pequeninos! Obrigada pela sua companhia! Vejo vocês em breve!

graduacao

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2 comentários sobre “Meu último dia.

  1. Chorei. Com certeza a partir de tua estada no Quênia serás uma pessoa bem melhor do que já és. Seja feliz. Deus te abençoe. E que, pessoas como essas, que tu agraciastes com teus cuidados, tenham a sorte e a felicidade de conhecerem muitas Nikes em suas vidas. Beijos.

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