O jovem Fifi.

Há exatamente um mês atrás, Fifi chegara ao Quênia como refugiado proveniente do Burundi. Antes de vir pra cá, passou um mês em Ruanda sozinho procurando recomeçar a vida. Como não conhecia ninguém, as coisas ficaram difíceis e lembrou do seu cunhado, a única pessoa com quem tinha contato fora do Burundi, que morava aqui. Foi por meio dele que conseguiu um abrigo em Nairóbi.

Seu cunhado se chama Jean Claude, um ótimo costureiro que trabalha no projeto L’Afrikana, do qual faço parte. O Jean era um professor de costura no Burundi, até ser recrutado pelo exército. Viveu dois anos como um soldado em meio a guerra civil. Levou uma pedrada forte na cabeça, a qual fez com que ele voltasse pra casa. Seu comportamento mudou e sua vida nunca mais foi a mesma. Quando alguns refugiados tocam no assunto como o Massacre de Makobola (iniciado pelo mesmo exército do qual fazia parte), Jean se retira da sala em silêncio. Ele não tem forças pra relembrar todas as barbáries que passou enquanto soldado.

Já a história de Fifi é diferente, mas também não deixa de ser triste. Ainda se recuperando de uma guerra civíl, o Burundi vem tendo graves problemas políticos com a terceira reeleição do atual presidente, algo inconstitucional, já que lei prevê apenas dois mandatos. Após o anúncio, muitas pessoas, em sua grande maioria jovens, foram as ruas protestar por seus direitos. Fifi era um deles.

Assim como em muitos outros lugares, os protestos foram reprimidos com violência e prisões. Fifi viu amigos morrerem ao seu lado e tantos outros serem presos junto á ele. Foi perseguido e passou uma semana na prisão, de onde fugiu sozinho sem destino. Não levava nada consigo e não sabia pra onde ir.

Me contara toda a história apoiado em minha mesa, enquanto eu trabalhava. Pouco a pouco foi se abrindo. Comecei uma pergunta sobre como foi seu tempo na prisão, mas não consegui terminar a frase. Seus olhos cheio de lágrimas já me davam a resposta.

Segurei em sua mão e disse que sentia muito. Não são todos que tem a coragem de Fifi, de sair na rua e lutar pelos direitos do seu país. Eu espero que um dia eles vençam, voltem de cabeça erguida e transformem toda a dor em paz.

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Um comentário sobre “O jovem Fifi.

  1. Mais uma história triste no meio de muitas. Mas o bom vencerá o mal. Eles poderão um dia voltar para casa, nem que seja para visitar. Paz e muitas alegrias a eles.Beijos.

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