A minha gargalhada preferida.

Todo manhã quando chego no atelier e dou bom dia pra Florence, ela já me recebe com gargalhadas. Nunca vi menina mais risonha e brincalhona. Nos comunicamos com uma linguagem nossa, já que ela não fala inglês ou francês e eu não falo swahili. Mas a gente se entende muito bem e ri juntas das mímicas que uma faz pra outra.

Porém hoje foi diferente. Não ouvi gargalhada nenhuma. Vi uma Florence séria e distante. Perguntei o que tinha acontecido, mas ela não tentou me explicar. Sei pouco sobre sua história. Foi violentada, assim como tantas outras e fugiu do Congo ainda muito jovem carregando uma criança em seu ventre. Hoje é mãe solteira de dois filhos, a Jolie e o Miguel.

O Miguel é meu assistente e fiel escudeiro, apesar de as vezes me dar uns tapinhas com toda a força que pode e uma cara emburrada porque quer brincar a todo momento. Tem apenas dois aninhos, mas já é super independente. As crianças aprendem desde cedo a se virar por aqui.

Hoje ele inventou que queria comprar um trator, já que viu um na rua principal da Kabiria. Tinha uma moeda de um shilling (como um centavo pra gente) na mão. O Jacob deu mais uma moeda e ele saiu convicto de que aquilo era suficiente para comprar o seu grande trator. Enquanto a gente ria da situação toda, ele olhava muito emburrado não achando graça nenhuma. E a Florence continuava com o olhar distante.

Foi aí que vi uma caixa de papelão vazia e lembrei de quando era criança e adorava brincar com caixas. Elas viravam barcos, Tv, espaçonaves e carros.

– Já sei! – disse pro Jacob, largando minhas réguas da mão e correndo pra outra sala pra pegar uma caneta hidrográfica.

Voltei pra nossa sala, peguei a caixa e comecei a desenhar círculos nela: os faróis e as rodas. Comecei a cortar o papelão pra fazer o volante e peguei um pedaço de tecido pra amarrar e poder girar. Enquanto eu me sentia uma super engenheira com papelão, o Jacob e a Florence me olhavam com uma cara de “o que ela está aprontando dessa vez?”

– Tcharam! Um carro! Com volante de verdade!! – eu exclamei.

O Miguel logo entrou e começou a falar “vrum vrum” enquanto girava o volante. Olhou pra mim desconfiado, porque o carro não andava. Então tive que sair empurrando a caixa com ele dentro por todo o atelier enquanto ele ria, eu ria, o Jacob ria e a Florence dava gargalhadas.

Agora sim o dia estava completo novamente, com aquela risada única que contagia todo ambiente.

Eu já disse que pra alegrar o dia de alguém basta amor e um toque de criatividade?

miguel

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Um comentário sobre “A minha gargalhada preferida.

  1. Muito bom. Realmente para se ser feliz não se precisa de muito. Como diz um político sul americano chamado Mujica: “Pobre é quem precisa de muito para viver.” Parabéns.Beijos

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