Simbi.

Dez horas da noite. Esse é o horário que o Simbi e sua esposa tomam, diariamente, o remédio para o vírus HIV, dado gratuitamente pelo governo.

Sua esposa só chegou no Quênia seis meses depois dele, trazendo com ela o vírus. Passou pra ele sem saber que estava doente. Descobriu por acaso, fazendo o teste em uma clínica. O Simbi, muito triste, pensou em abandoná-la pois, na sua mente, ela havia o traído. Até que ela resolveu contar como tudo tinha acontecido enquanto fugia para ir ao seu encontro.

Fora estuprada. Não só ela, como sua sogra e sua filha. Todas na mesma sala, por mais de um homem, com armas na cabeça obrigando-as a fazer coisas absurdas. Sua filha engravidou, sua esposa contraiu o vírus HIV e todas as três carregam o fardo da violência no olhar.

O Simbi se sente culpado por tudo e carrega o mesmo olhar pesado, o qual observei enquanto me contava toda sua história cheio de lágrimas e um pouco vazio, coisa rara de se ver nele. Resolveu se abrir, sentado na minha frente na mesa de casa. Assim, meio do nada, me contou como tudo aconteceu.

Era general do exército da RD do Congo. Viu e vivenciou a violência. Já matou pessoas, e se arrepende. Tornou para sua vila e virou o chefe, aquele que toma as decisões importantes. Depois de tudo que viveu, resolveu propor paz para a vila vizinha, que seria atacada. Começou a ensinar às pessoas da sua vila e da próxima que eram irmãos, não inimigos. Alguns não gostaram dessa atitude e começaram a persegui-lo. Não só ele como toda sua família. E foi assim que chegaram até as três mulheres mais importantes de sua vida, e tiraram parte da vida delas.

O Simbi conta que muitas vezes chega em casa e encontra a esposa sentada no canto do sofá, com um olhar distante, abatida. Pode ficar assim por horas. Pergunta o que é, mas ela nada diz. Porém ele sabe o real motivo. É o mesmo motivo de eu estar olhando pra ele agora e sentir uma angústia enorme por não saber o que dizer, a não ser sinto muito.

– Mas um dia eu voltarei e serei o presidente do Congo! Se não eu, meu filho! Se não ele, meu neto! Escuta o que estou te dizendo Niki. Nós ainda voltaremos para mudar a realidade do nosso país, para que ninguém mais passe pelo que passamos. – ele me disse firme, com os olhos marejados.

Ninguém merece carregar a dor que carregam. É pesado. É difícil de explicar, mas é tão fácil de sentir. Dói. Dói muito. As vezes a luz que trazem consigo é ofuscada pelas lembranças da guerra. O semblante muda. Não só neles, como em mim.

– Simbi, eu posso escrever sobre sua história pra que mais pessoas conheçam a realidade que vocês vivem? – eu perguntei, vendo seu olhar distante mesmo quando o assunto já tinha mudado.

Ele concordou. Fez questão. Eles querem ter voz. Eles merecem isso. E aqui está.

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2 comentários sobre “Simbi.

  1. Choro só ao ler essas histórias. A gente perde o chão e percebemos como não temos problemas ao ler sobre os deles. Tudo isso a gente sabe, eu pelo menos, estudando e lendo sobre esses países, mas escutando tua narrativa me parece mais real. Longe dos livros de geografia e dos documentários e muito perto. Muito perto do sofrimento e violência que um ser humano pode sofrer. Beijos para ti e para eles.
    Deus proteja a todos.

    Curtido por 1 pessoa

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