Raízes.

– Minha mão tá suja de cola e grafite por causa do trabalho. – Eu disse pro Bahimba, estendendo meu braço para cumprimentá-lo. Aqui, se sua mão está suja, se cumprimenta pelo pulso.

Mas quem disse que ele ligava? Me deu um forte aperto de mão e disse:

– Bem vinda! Esse é meu escritório! – ele brincou, rindo.

Hoje visitei o atelier de artistas refugiados que se encontra dentro do Kivuli, a ONG onde moro. A maioria é de Ruanda, mas também tem alguns do Burundi e do Congo. A ONG disponibiliza o lugar e a energia. O restante, como materiais, fica por conta dos artistas.

Enquanto eu caminhava em meio ao chão cheio de lascas de madeira, o Bahimba me mostrava as obras que já tinham sido esculpidas. Máscaras de várias tribos, símbolos religiosos, objetos para decorar a casa e até uma cadeira, que por sinal era confortável.

A história dele eu já conhecia. Fugiu de Ruanda por questões políticas as quais não concordava e mora no Quênia há 15 anos. Considera-se um cidadão do mundo e por isso não pensa tanto em voltar pra casa, mas em explorar outros países, diferentemente do Charles, que tive o prazer em conhecer hoje.

Me aproximei pra ver seu trabalho, enquanto ele esculpia um grande pedaço de madeira. Me disse que aquela já tinha dois anos, por isso a nuance de cores. Foi assim que começamos a conversar. Sentei num pedaço de tronco perto dele e comecei a ouvir sua história.

– Estou no Quênia há 16 anos. – ele me disse.

Fiquei chocada, porque ele parecia novo, e realmente estava certa. Ele fugiu de Ruanda com os pais e o irmão quando tinha apenas 3 anos de idade. O motivo? O mesmo de muitos, as guerras. Cresceu em Nairóbi e hoje já conta com mais cinco irmãos, todos nascidos aqui. Aprendeu a esculpir com o próprio pai que era um artesão em Ruanda. Por ter crescido no Quênia, não fala francês, um dos idiomas oficiais de seu país de origem.

Curiosa, perguntei se ele sentia vontade de voltar pra sua terra.

– Sim! Mas para isso preciso guardar dinheiro para começar meu próprio negócio lá. Não lembro direito da minha terra, não conheço as pessoas, não faço ideia de como vou encontrá-la, mas sei que as coisas estão mais calmas e tenho certeza que quero voltar um dia.

Ele terá que recomeçar uma vida do zero, mas pouco se importa. É a sua terra, o seu berço e ele quer viver junto dela, nem que leve anos para isso. Não só ele como seus irmãos que nem nasceram lá.

Admiro essas raízes que eles criam com seu próprio país, a esperança que eles carregam e o otimismo de largar tudo e recomeçar de novo, em casa e em paz.

madeira

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