Uma tarde no orfanato.

– Bonjour!

– Bonjour, je m’appelle Niki et toi? – eu respondi estendendo a mão para cumprimenta-lo.

Foi assim que conheci o Collins, subindo as escadas do lugar onde moro. Ele achou que eu fosse francesa porque tinha me visto falar francês e eu achei que ele fosse um refugiado devido ao idioma.

– Não, eu sou daqui mesmo. Na verdade é só isso que sei de francês, achei que você fosse francesa. Eu cuido do orfanato aqui. – ele me disse, agora em inglês.

Dentro da ONG que moro existe um orfanato de meninos. O Collins era um deles. Veio pra cá em 1998. Nunca conheceu os pais, avós, tios, nunca conheceu ninguém da família. Tem três irmãos mais novos, cada um em um lugar diferente.

– Eu não conheço ninguém, Niki. Nunca ouvi falar de nenhum parente, não faço ideia de quem são, onde estão. Eu sou sozinho.

– Você não é sozinho, rapaz. Você tem as pessoas aqui do centro, as crianças…e você tem uma nova amiga também. – eu disse pra ele sorrindo.

Ele concordou e retribui o sorriso.

Conversamos um pouco e tive que ir trabalhar, mas combinamos de nos encontrar algum dia para que eu conhecesse o orfanato. E eis que o dia chega.

– Essa é a sala de aula. Aqui ensinamos ciências, matemática, geografia e inglês. Mas eles estudam nas escolas fora também, aqui a gente só dá um suporte.

Foi assim que começou o passeio, naquela sala pequena, com carteiras de madeira antiga e um quadro negro onde estavam escritas as cidades da Austrália.

– Acho que vou participar de umas aulas aqui, sou péssima em geografia, só conheço duas cidades dessa lista. – eu disse pra ele.

Ele riu e disse que eu era bem vinda. Perguntou se eu já estive na Austrália e eu respondi que ainda não.

– Mas é seu sonho, né? Viajar por aí? – ele perguntou.

– Sim! – respondi.

– Então com certeza um dia você estará lá!

Depois passamos pela biblioteca, onde as crianças podem pesquisar em antigos livros, e fomos ver onde elas dormiam. São dois quartos grandes, com beliches, mosqueteiros e pequenos armários.  Um quarto é para os meninos um pouco maiores e o outro é pros pequenos que ainda fazem xixi na cama. Por isso as camas são revestidas com uma capa de couro e os cobertores lavados todos os dias. Fora dos quartos, existe um corredor com pias grandes, onde as crianças lavam a própria roupa. Eles aprendem desde cedo a ser responsáveis com suas próprias coisas.

A parte de trás do corredor é equipada com alguns chuveiros onde os meninos tomam banho e, mais ao lado, pude ver a cozinha onde é preparada a comida. Tudo muito rústico. Passamos pelo refeitório onde alguns garotos assistiam Tv, e chegamos em frente a uma porta fechada.

– Essa é a porta do meu escritório! – disse ele todo orgulhoso, abrindo a porta pra mim.

A sala é grande, tem uma estante com livros, duas mesas e uma Tv. Na parede, algumas fotos de crianças da Ong. Uma delas me chamou atenção. Era uma foto cheia de crianças brancas e algumas crianças daqui. Perguntei onde era. Ele disse que a ONG leva um grupo de crianças e adolescentes pra Roma todo ano, onde eles fazem apresentações de teatro, música e dança (coisas que aprendem aqui na ONG também). Alguns, já mais velhos, acabam voltando para a Itália e trabalhando profissionalmente nessa área.

A porta em frente à dele era da assistente social do orfanato. Hoje o Collins é seu auxiliar. Ele aproveita todas as oportunidade que tem para estudar, já fez curso de psicologia e agora está fazendo de “business management”. Guarda parte do seu salário (que não perguntei por educação, mas creio que não deve ser tão alto) para investir nos estudos e crescer na carreira. Ele quer se tornar um assistente social competente para administrar o orfanato um dia.

– Esse é seu sonho, né? – perguntei.

– Sim! – ele respondeu.

– Então com certeza um dia te verei trabalhando atrás dessa porta. – Eu disse, apontando pra porta da assistente social.

Ele deu um sorriso sincero.

Em cima: Collins na sala de aula e utensílios na cozinha. Embaixo: dormitório dos meninos mais novos com duas kids sapecas.
Em cima: Collins na sala de aula e utensílios na cozinha.
Embaixo: dormitório dos meninos mais novos com duas kids sapecas.
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