Minhas duas bactérias.

Quando vou passar um período longo fora de casa sempre preparo um kit de sobrevivência com alguns remédios. Não que eu seja hipocondríaca, mas prevenir é melhor que…enfim.

Na minha primeira semana em Nairóbi a gastrite resolveu dar o ar da graça, o que pra mim não foi surpresa nenhuma. Com a mudança de alimentação e um nervosismo inconsciente, é comum que ela apareça. Mas tudo bem, tenho omeprazol.

Há três dias atrás comecei a sentir mal estar e ficar fraca. Tomei um soro caseiro que trouxe, aqueles em pó, e parecia que estava melhorando. Mas ontem o mal estar voltou. Então deixei minha teimosia de lado e fui ver um médico.

Moro dentro de uma ONG italiana chamada Kivuli. Aqui, além dos pequenos apartamentos para alugar, há um orfanato, alguns laboratórios de ensino (como sala de informática e costura) e uma clínica pra atender a comunidade a um custo baixo. Foi ali que me consultei.

Cheguei perto das 14 horas, mas a médica estava em horário de almoço. Enquanto esperava, fiquei conversando com o homem sentado ao meu lado e sua filha de três anos que me encarava com curiosidade.

– Ela acha estranha a cor da sua pele. Fica pensando porque você tem a pele diferente da nossa. Já ouviu a palavra muzungo?

Sim, ouço diariamente. Após uns vinte minutos a médica voltou ao trabalho e eu entrei na sala de consulta. Primeiro deve-se fazer a carteirinha de paciente, um pequeno cartão amarelo com seu nome e idade. Depois a secretária te encaminha para o consultório médico, que fica num canto dentro da mesma sala, separado por uma porta.

A secretária ainda estava ausente então quem fez tudo foi a própria médica. Escreveu meus dados e entrou comigo na sua sala. Contei sobre meus sintomas e ela me falou pra fazer alguns exames pois eu poderia estar com algum tipo de bactéria. Arrancou meia folha de papel de um caderninho, escreveu os exames que eu deveria fazer e me encaminhou pro laboratório. Precisei fazer exame de sangue e o famoso exame do potinho.

O enfermeiro amarrou uma luva de borracha no meu braço pra observar melhor as veias.

– É fácil encontrá-las, né? – disse pra ele.

– Sim, super fácil! Dá pra ver tudo, nem precisava da luva! – disse ele rindo. – Você tem medo de agulha?

– Não.

O resultado dos exames sai na hora e é tudo escrito na mesma folha de papel. Levei-a para a médica que disse que eu estou com duas bactérias (ameba e tifóide) provenientes de alimentos mal lavados ou cozidos e/ou água contaminada. Aqui só bebo água mineral da minha propria garrafa, então provavelmente foi algo que comi durante o almoço na escola.

Ela disse que não é nada grave, me receitou alguns remédios e me encaminhou pra farmácia.

– Ahá! É você, a garota brasileira! – disse um dos farmaceuticos. – Como é seu nome mesmo?

– Munike. Mas as pessoas me chamam de Niki.

– Niki? Nicki Minaj!

Ouço isso toda vez que falo meu apelido.

O farmaceutico separou os remédios enquanto conversávamos. Aqui os remédios não são dados nas caixinhas, como no Brasil. Eles colocam em pequenos envelopes de papel e escrevem a dosagem. Não tem nomes nem bulas pro consumidor.

– Toma isso direitinho que você vai melhorar bem rápido! – disse ele sorridente.

O bom desta cliníca é que tem tudo que se precisa, uma salinha do lado da outra. Em menos de uma hora você consegue ser atendido, fazer os exames, pegar o diagnostico e comprar os remédios. E o total que paguei por tudo foi em torno de 30 reais. O bom atendimento e o baixo custo são muito positivos para as pessoas da comunidade Kabiria.

Quanto a mim, estou me cuidando e me tratando pra me livrar dessas minhas novas “amiguinhas” de vez e voltar a ter novas aventuras! hahaha

Papel com os exames; envelopes com os remédios e a quantidade de remédios que estou tomando diariamente.
Papel com os exames; envelopes com os remédios e a quantidade de remédios que estou tomando diariamente.
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5 comentários sobre “Minhas duas bactérias.

  1. Munike, li a sua postagem em voz alta para a minha mãe… E ela comentou comigo que muito antigamente os remédios aqui no Brasil também eram distribuídos assim: em saquinhos… Rs!

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