O corajoso Jac.

Ontem passei a manhã com o Jacob. Fomos comprar algumas coisas pro atelier. No caminho de volta, passamos por um prédio em construção e ele me disse que quando chegou aqui trabalhou como pedreiro. Foi assim que ele começou a se abrir comigo e contar toda a sua história.

O Jacob era um professor de geografia e francês muito conceituado na sua área. Seu pai era o chefe da vila e foi assassinado por um grupo rebelde que não aceitava suas idéias. Foi por essa razão que o Jac (apelido  carinhoso que dei pra ele) começou  sua trajetória de fuga. O grupo achava que ele queria se vingar, então acabariam com ele antes.

Sabendo disso, fugiu pela primeira vez por volta de 1998. Depois de alguns anos, descobriu que um familiar muito querido tinha falecido e voltou a vila para visitar o túmulo. Seu tio o abrigou e disse que ele deveria fugir novamente, pois ainda haviam pessoas atrás dele. Jacob insistiu que queria ficar.

– Então que venham! – ele exclamava.

Mas seu tio o lembrou que isso não se tratava só sobre ele, poderia envolver toda a vila. Então, as quatro da tarde daquele dia, Jacob, juntamente com sua esposa grávida e sua filha pequena, fugiram para outra cidade. As 11 da noite sua vila foi atacada, duas pessoas morreram e seu tio foi torturado. Queriam saber a todo custo onde estava o Jac.

Foi assim que ele decidiu deixar sua esposa e filha em um lugar seguro e continuar a viagem até Nairóbi. Era 2008. Após dois dias, um grupo de seis homens encontrou-a, a torturou e a violentou por dias, todos eles.

– Se você não disser onde ele está, nos voltamos amanhã! – diziam pra ela.

Jacob chegou em Nairóbi e encontrou abrigo em uma igreja. Decidiu não ficar no campo de refugiados por dois motivos. O primeiro é que lá ele não trabalharia e a ideia de receber tudo de graça sem fazer esforço não lhe parece justa (algo que acho muito correto). O segundo é que ele desconfiava que algumas das pessoas que o perseguiam estariam lá.

Tentou encontrar emprego como professor, mas pagavam muito pouco. Então começou a trabalhar como pedreiro e, depois de um tempo, conheceu uma refugiada que ensinava costura. Era a irmã do Simbi (que atualmente mora nos Estados Unidos). Conseguiu uma máquina antiga, usada (que hoje utilizamos em nossas aulas) e começou a costurar. Tendo uma pequena fonte de renda, sua esposa e filhos vieram a seu encontro.

Hoje moram na comunidade Kabiria são e salvos. Jacob trata sua esposa com muito carinho e amor pois ainda se sente culpado pelas barbáries feitas contra ela e tenta sempre reconfortá-la, mesmo que já se passaram alguns anos.

– Mas ninguém mais foi atrás de você? – perguntei.

– Claro que sim! Me ligaram pedindo perdão e perguntando onde eu estava.

É claro que não querem perdão, e ele sabe bem disso. Mas, corajoso, respondeu:

– Eu estou em Nairóbi! Querem vir atrás de mim? Então venham!!

– Jacob, você não tem medo depois de tudo que aconteceu?

– Não! Eles não sabem onde fica Nairóbi e, se chegarem ate aqui, a polícia pode me ajudar, ao contrário da polícia na minha vila que não tem poder nenhum.

Nesse momento já estávamos na minha casa tomando um copo d’água e comendo umas bolachas.

– Sabe Niki, daqui uns anos nosso país estará em paz de novo e vamos voltar pra lá, expandir o projeto e vender produtos lá também! Nós ainda seremos grandes!

Posso ver a esperança nos seus olhos, algo que me dá forças pra continuar aqui.

Nosso projeto pode ser pequeno ainda, mas nós, nós já somos grandes!

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Um comentário sobre “O corajoso Jac.

  1. Que lindo o Jacob (Jac). Sabia que tínhamos algo em comum: professores de geografia.O mundo precisa de costureiros sim, de gente que entenda de arte, mas o mundo precisa também de professores, muitos professores. Pena que nossa profissão seja tão desvalorizada. Post maravilhoso Munike. Abraços a ti e saudações geográficas a Jacob (Jac). Fiquem com Deus e muito sucesso para ambos.

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