Das histórias que te pegam desprevenida.

Hoje tinha tudo pra ser mais um dia comum na escola. E foi. Aula de costura de manhã, almoço, aula de português/swahili a tarde e trabalho. Muita risada e aprendizado nas aulas. O clima estava ótimo, seja entre nós que na rua. O sol brilhava.

Até que sentei na frente do meu computador junto com o Jacob pra traduzir nosso plano de aula. O Simbi se juntou à gente, assim como o Jean Claude, o Maja e o Mukunda.

– Niki, mostra pra eles a imagem do ekembe que achamos outro dia. – pediu Simbi.

Abri a imagem. Ouvi um coro de “OOOOH!” e disse que hoje em dia podemos encontrar tudo na internet.

– Então escreve aí, Niki, massacre de Makobola.

Eu já tinha ouvido eles contarem sobre esse assunto. Sabia que veria imagens muito chocantes. Mas, o que choca mais que as imagens são as histórias por trás delas.

Makobola é a vila onde nasceu a maioria dos refugiados que convivo. Era uma quarta feira, 30 de dezembro de 1998. Foram os rebeldes Tutsi, de Ruanda, em nome do presidente, que atacaram a vila. Trancavam as famílias nas casas e ateavam fogo, estupravam as mulheres, matavam as crianças com marretadas.

– Por que? – perguntei.

A resposta foi o que já imaginava. Ruanda quer tomar parte da RD do Congo como território deles, pois é um país com muitas riquezas.

(Tentei procurar notícias sobre o assunto, mas são raras. As informações sobre o motivo escritas aqui são as contadas por eles próprios. Mas conversando com uma professora de geografia que entende muito do assunto, existem outros motivos também como os tutsis invadirem a RD do Congo atrás dos hutus e acabaram envolvendo o povo do Congo na luta deles.)

Meus amigos viveram esse momento. Fugiram para a floresta. Era o único lugar seguro. Passaram semanas lá.

Me contavam as histórias com lágrimas nos olhos, um chegou a sair da sala. Fechei a página de imagens e disse que podíamos mudar de assunto, que não precisavam falar o que não queriam.

– Não, Niki. A gente quer te contar. A gente quer que tu saiba como é nossa casa, o que aconteceu. Tem muitas coisas que deixamos o tempo esquecer de tão fortes. Volta pras imagens.

O massacre de Makobola tem data final de 01 de janeiro de 1999, pleno ano novo. Este faz parte dos inúmeros conflitos iniciados em 1998, conhecido como “Grande Guerra da África”. Em julho de 2003 foi proclamado o fim oficial da guerra, mas, não é assim na prática. Ainda hoje o país vive muitos conflitos desse tipo. Não é á toa que há anos meus amigos são refugiados aqui no Quênia.

Me contaram que saíram numa embarcação de madeira com umas 500 pessoas, esmagados no barco. Depois fizeram o trajeto de ônibus. Levou em torno de quatro dias até chegarem aqui.

Perguntei o que o presidente fazia pra mudar essa situação.

– Nada. Ele não se importa. Somos pequenos, ninguém se importa.

Eu me importo. Mas me senti impotente.

Me disseram que as coisas estão melhorando. Que esperam que daqui uns anos a paz se instaure no país de novo.

No meio das imagens, eis que o Simbi exclama: “REGAAARDEEEZ!!” (Olhem!!)

Era uma foto de um grupo de pessoas. O grupo de pessoas da vila deles, que eles conheciam e conviviam. Ficaram super felizes de encontrar isso, apontando pra cada rosto e me contando quem era quem. Era como se tudo que eu tinha ouvido até então não tivesse sido contado. O assunto central virou a imagem, as pessoas, as coisas boas.

Mas o clima agora é outro. Dentro de mim e lá fora. Agora chove. E pela primeira vez desde que cheguei, caíram lágrimas.

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3 comentários sobre “Das histórias que te pegam desprevenida.

  1. Este texto me fez lembrar um versículo da Bíblia:
    “Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece”. (Filipenses 4:12,13)

    Que grande exemplo estas pessoas são pra mim! Aprenderam o segredo de viver contente em qualquer situação.

    Curtido por 1 pessoa

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